domingo, 18 de dezembro de 2016

Véspera


Arrumavam as malas. Aquela seria a primeira vez em anos que passariam a data separados. De um lado da casa, ele separava as camisas por cor: as claras na base, deixando que as escuras tomassem o maior espaço e fossem localizadas de maneira fácil. Do outro, ela recolhia os itens do banheiro. Maquiagens, perfumes, cremes, aproveitando para descartar as embalagens que há muito deveriam estar no lixo, independente das reivindicações dos donos. As tarefas eram realizadas de forma metódica e silenciosa, com a irônica eficiência que acreditavam ser a mesma dos ajudantes do bom velhinho quando pequenos. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Universo





"Verdade que o preço a ser pago é alto, 
mas temos que aceitá-lo: não podemos nos 
distinguir dos muitos sinais que passam por 
este caminho, cada um com um significado seu que 
permanece escondido e indecifrável, pois fora daqui não 
há mais ninguém capaz de nos receber e nos entender."
Ítalo Calvino in. Amores Difíceis

É que eu estou acostumado a fazer as malas e...partir – disse no exato momento que olhou pra ela e apontou pra constelação artificial acima das próprias cabeças – Mas, enfim. – concluiu, sem adicionar um final concreto à frase, deixando que a ouvinte inferisse aquilo que melhor lhe caberia.

sábado, 19 de novembro de 2016

Sorriso ao sono


"Isso me inquieta. Sinto que quem fala comigo é uma foto. 
Recordo aquele poema, "Os olhos desta dama morta me falam". 
Mas ela move as mãos e a vida volta ao seu corpo. Não está morta, 
penso de novo, e de novo sinto uma alegria imensa." 
Formas de voltar para casa, Alejandro Zambra.

Foi abrir os próprios olhos para sentir os dela o encarando do outro lado da sala. Era madrugada e a pequena forma o observava da outra poltrona, sem dizer nada. Tentou erguer-se do sofá, estabelecer algum movimento que despertasse nela qualquer tipo de reflexo, mas foi em vão: caberia apenas assistir ao enquadramento formado pelas grandes janelas em contraste com a sombra do móvel e do corpo que nele repousava. Pensou em como ela poderia ter chegado ali sem saber o endereço ou mesmo o número correto da porta a se atravessar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Passageiro


A última vez que desembarquei no Tietê foi sabendo que não cruzaria a infinidade de linhas da Portuguesa-Tietê ao Terminal da Barra Funda porque significava ultrapassar os limites que me levariam de volta ao teu mundo, repleto de ônibus, carros, sinais fechados e lugares que aprendi a explorar do teu lado. Assim, sabia também que as mãos não pousariam na minha cintura e que seguiríamos lado a lado com um abismo nos separando, mesmo quando insisti em prender meus dedos nos seus, mesmo quando você subiu comigo de elevador e entrou comigo num quarto estranho de um prédio aleatório da Augusta, aquele, que juravas que era pro lado da Oscar Freire quando mal o meu dinheiro dava para pequenos luxos, como almoçar todos os dias ou tomar um táxi nos dias em que estivesse muito cansada. E eu ri, pelos deuses, e chorei tanto quanto foi possível. A Paulista aberta no dia seguinte era a memória que eu levaria comigo nos meses seguintes, sabendo tudo que precisava para seguir a vida estaria dentro de mim e que o lugar no qual meu corpo repousaria era só um detalhe que você não entenderia nunca.