segunda-feira, 31 de agosto de 2026

o nascimento das epifanias

as epifanias nascem quando você não espera e, às vezes, te atropelam no meio do passeio com os cachorros logo após uma tarde de notícias amargas e tempestades de um desastre climático que se confirma um dia após o outro. 

elas [as epifanias] se apontam numa esquina, no cruzar da calçada, quando o casal se aproxima da unidade de exames no próprio tempo. na verdade, em razão do peso dele, anunciado pela pele já com expressões de um riso marcado e das linhas na testa de uma reação que não deu pra esconder. nas mãos dadas há décadas atrás que permanecem juntas até agora. na demora pra subir as escadas, eles, que devem ter corrido tanto juntos. surgem no questionamento dos filhos que não acompanham — mas como poderiam se é a segunda-feira de um dia útil em pleno horário de pico e após a prévia do apocalipse.

elas surgem quando você se questiona outra vez se valerá tê-los ou se você agenda logo a histerectomia planejada no início do ano. o mundo vai acabar de qualquer forma, com filhos ou sem, podendo eles acompanhar ou não uma consulta no início da semana. não importa.

as epifanias, ao fone de ouvido, sussurram na voz de björk que alguém tomará conta, talvez não da maneira que você espera, mas é necessário confiar. tudo é repleto de amor. deixar o controle, como um exercício de memória que precisa ser feito todos os dias. 

e as epifanias não acabam quando você entra no elevador e a fiona diz que o tempo é elástico e você viu naqueles dois rostos. você também vê no seu que resiste à ideia de procedimentos da moda. e a mulher com sobrenome de maçã diz também que nada disso importará no fim. 

e as epifanias não silenciam porque você precisa conferir se as velas que ficaram acesas foram consumidas e os desejos endereçados, ou se tentaram incediar a sala. 

as epifanias nascem em textos como esse que são quase apagados por uma pata ansiosa que atinge as teclas e some com as palavras, demandando atenção.

nada disso vai importar a longo prazo. o agora importa.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A teia das possibilidades é feita de emaranhados que me puxam de volta sempre que eu acredito estar solta. É o fantasma terrivelmente parecido na fila do mercado. A sombra na parada do ônibus que reflete as curvas do cabelo igual o teu. A insistência em vigilância que eu sei que não significa nada e, mesmo assim, me arrasta pra perguntas que não serão respondidas. Pensamentos intrusivos que me rodeiam às 17h37, a caminho de um café.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

a quebra da maldição.

 fui aprender a ser grande ontem: controlar as emoções frente às memórias me prega peças demais. a cada volta nas quadras percebo o quanto permaneço romântica, apesar de ter endurecido em um momento ou outro. 

repasso na cabeça as coisas que eles não entenderiam. o ciclo de 9 anos que se encerra agora me fez outra. mais polida. uma criança grande, mas segura. os cabelos curtos, pintados. uma felicidade boba. uma fé inabalável em deuses que não podem ser explicados. e eu queria explicar, principalmente aos amores antigos que orbitam. penso se eles gostariam do que eu sou hoje, mesmo que não faça sentido e que essa validação já não sirva de muito. o meu desejo hoje é grande e ocupa espaço, mesmo que de formas diferentes. os 30 batem à porta e eu percebo que foram 9 anos pra virar borboleta e desfazer tudo que eu sabia. ao mesmo tempo, ali aos 21, eu era grande. ousada, diria. unhas, dentes, uma coragem. tudo que se transforma em doçura. menos medo ou reatividade. penso demais, mas tento não perder as noites de sono. 9 anos de lagarta e eu não tenho pra quem contar. a Ariel que perdeu a voz em boa parte dos 9 anos quebrou a maldição e canta de novo. eu sei de muitas coisas agora, eu tenho menos títulos e menos horas de protocolo, mas um coração mais macio e leve. sou outra. que bom.