quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Depois de amanhã



É chegado o afastamento
Pela força do desejo
o longínquo
aproxima-se um instante
até que a proximidade
recua
o próximo distancia-se
e pouco a pouco
avizinha-se a distância
Tão cedo era tarde demais
Ana Martins Marques

Adiava o encontro como se, ao postergar o amanhã, amansasse aquilo que trazia no peito. Sentia muito. Não com o pesar de quem profere desculpas, mas com a intensidade de leões selvagens que tentam ser domados. A diferença é que ele seria devorado pela própria natureza e, uma vez digerido, acabaria só, outra vez.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Permanência


“Ele me adora e eu vejo através dos seus olhos 
um menino que aperta o gatilho do coração 
sem saber o nome do que pratica. 
Ele me adora e eu o gratifico 
só com os olhos que o vejo. 
Corto todas as cebolas da casa, 
arrasto os móveis, incenso. 
Ele tem medo de dizer que me ama.
E me aperta e mão, 
e me chama de amiga”
Luiz Carlos Lacerda

"Um casal se abraça à frente e as minhas mãos anseiam o toque dos teus dedos contra os meus em meio ao barulho nada ensurdecedor do silêncio que ganha amplitude quando estamos juntos e você repousa a cabeça nos meus ombros minhas mãos percorrendo cada centímetro dos fios do teu cabelo indo da raiz às pontas justo no momento em que fecha os olhos tu te perdes e sei que ali naquele momento tão breve és meu justo  quando não verbalizas e teus sentidos desvanecem e esqueces da vida quizá de mim eu hoje andei tanto tanto tanto que meus pés falharam mas andei um pouco mais até aqui para dizerque o peito não dá trégua e cada plano travado é uma forma de te fazer encontrar meu abraço mais adiante como que por descuido ou acaso seja na sessão de vinhos do supermercado ou no lado oposto da cidade onde habita e eu insisto em visitar por um motivo qualquer e não vês que tendo a ir embora que pode haver outro maior e mais claro que a ti que me prendo nos teus cabelos enquanto ele me prende em sinceridade e imensidão que aquilo que a ti escapas ao outro sobra quando me lê em meio a carícias que clamo qualquer sinal seja teu ou divino de que me quer aqui com todas as palavras e que deverias dizer que me quer aqui antes que percebas que estás a me perder qu"

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Dama

Ouça: Gardênia Branca - Filipe Catto
Cantarolava o fado da infância enquanto tingia as unhas de vermelho sangue, encarando o próprio trabalho como um restaurador a cuidar da mais preciosa das obras. Pois o era, afinal. Dona de si, Ângela se encarava no espelho após as horas investidas no próprio cuidado. A tela iluminada ao lado avisava que o próximo estaria ali em alguns minutos, dando-lhe tempo para retocar o batom, o perfume e a confiança. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Dúvida


Permanecer no quarto da infância era deixar-se afogar pelas reminiscências de uma existência leve e distante daquela que agora encarava. Intacto, o ambiente apresentava ainda os mesmos elementos que posicionara por último na adolescência, pouco antes de deixar o lar para se aventurar no mundo.