terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Tu

Ouça: Then Go - Damien Rice & Lisa Hannigan


Primeiro tu, segunda pessoa do (tão) singular, contaminastes minhas canções ao cantarolar distraído todas as estrofes mais doloridas. Depois, fizestes dos nós do meu cabelo o caminho perfeito pra enlaçar os teus dedos. Te abrigastes, então, no meu abraço, disponível 24 horas mesmo que o desejasses apenas duas vezes ao mês ou quando o vazio dos dias te esgotava. Mergulhastes nas minhas cervejas, redescobrindo meus bares favoritos. A cidade, minha, te coube tão bem que a estrangeira, descobri, era eu. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Valentim


Posicionava-se sempre à mesma mesa, às 18h45 de toda terça-feira. Munido dos jornais do dia, repassava as notícias obsoletas das horas anteriores. Vez ou outra, trazia também o livro da semana e devorava as páginas acompanhado de um expresso sem açúcar. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Depois de amanhã



É chegado o afastamento
Pela força do desejo
o longínquo
aproxima-se um instante
até que a proximidade
recua
o próximo distancia-se
e pouco a pouco
avizinha-se a distância
Tão cedo era tarde demais
Ana Martins Marques

Adiava o encontro como se, ao postergar o amanhã, amansasse aquilo que trazia no peito. Sentia muito. Não com o pesar de quem profere desculpas, mas com a intensidade de leões selvagens que tentam ser domados. A diferença é que ele seria devorado pela própria natureza e, uma vez digerido, acabaria só, outra vez.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Permanência


“Ele me adora e eu vejo através dos seus olhos 
um menino que aperta o gatilho do coração 
sem saber o nome do que pratica. 
Ele me adora e eu o gratifico 
só com os olhos que o vejo. 
Corto todas as cebolas da casa, 
arrasto os móveis, incenso. 
Ele tem medo de dizer que me ama.
E me aperta e mão, 
e me chama de amiga”
Luiz Carlos Lacerda

"Um casal se abraça à frente e as minhas mãos anseiam o toque dos teus dedos contra os meus em meio ao barulho nada ensurdecedor do silêncio que ganha amplitude quando estamos juntos e você repousa a cabeça nos meus ombros minhas mãos percorrendo cada centímetro dos fios do teu cabelo indo da raiz às pontas justo no momento em que fecha os olhos tu te perdes e sei que ali naquele momento tão breve és meu justo  quando não verbalizas e teus sentidos desvanecem e esqueces da vida quizá de mim eu hoje andei tanto tanto tanto que meus pés falharam mas andei um pouco mais até aqui para dizerque o peito não dá trégua e cada plano travado é uma forma de te fazer encontrar meu abraço mais adiante como que por descuido ou acaso seja na sessão de vinhos do supermercado ou no lado oposto da cidade onde habita e eu insisto em visitar por um motivo qualquer e não vês que tendo a ir embora que pode haver outro maior e mais claro que a ti que me prendo nos teus cabelos enquanto ele me prende em sinceridade e imensidão que aquilo que a ti escapas ao outro sobra quando me lê em meio a carícias que clamo qualquer sinal seja teu ou divino de que me quer aqui com todas as palavras e que deverias dizer que me quer aqui antes que percebas que estás a me perder qu"