segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hiato


A primeira vez que ouvira falar dele fora por intermédio de um rapaz que conhecera graças ao gosto literário caótico. Ao ler a situação e perceber que a moça carregava um punhado de idealizações junto a si, mencionou o amigo, dizendo que este alimentava com ansiedades a paixão que possuía por uma desconhecida. Não sabia nada, nem mesmo seu nome, mas estava convencido de que, se houvesse paciência e um pouco de coragem, poderiam ficar juntos. Diante da informação, a moça riu e, no entanto, abraçou cada pedaço da essência desconhecida, esperando que os caminhos se cruzassem.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Formas de Voltar Para Casa


“Se não quiser luzes acesas durante a madrugada e o incessante barulho do lápis cortando o papel durante a madrugada, certifique-se de não dormir comigo”, ele disse, assinando a sentença com um ponto final invisível que encarou como ironia e que ela leu como crueza.

sábado, 23 de abril de 2016

A náusea


À primeira mordida, sentira o doce do fruto sendo triturado pelos dentes passando da língua à garganta em poucos segundos. Tornando a morder, sentiu o gosto enjoado, o cheiro fétido da podridão a invadir-lhe o corpo. Colocou para fora o pedaço, descartando a parte maculada da refeição, que lembrara, seria a única em três ou quatro horas até poder chegar a própria casa. Insistiu nas partes limpas, mas o odor invadia suas narinas reforçando os defeitos da fruta que julgara perfeita momentos antes de levar à bolsa. Lembrou-se de algum ensinamento popular que dissera que um fruto maculado em contato com outros corromperia os demais. O estômago revirou com a metáfora: sua vida era uma sucessão na qual mesmo as maçãs que ainda resistiam agarradas ao pé seriam contaminadas por más escolhas tal qual aquela que se dissolvia em sua boca. Pensou também que à humanidade restaria a podridão resultante de tantas más escolhas como as dela. "Estaria, então, tudo perdido?", pensou enquanto engoliu outro pedaço, deixando que a parte escura deslizasse por suas papilas e laringe, ciente como se sentisse todo o percurso até o derradeiro baque surdo ao atingir o fundo do estômago. A água quente dentro de sua bolsa não limparia e outros sabores não reduziriam o gosto de encarar uma existência dotada de erros que não seria salva por um acerto. Sua existência tornava-se, então, permanentemente azeda e tudo estaria perdido. Perdido. Era isso.

Estaria tudo perdido?

segunda-feira, 28 de março de 2016

Retorno

Ouça: Carla Morrison - Tú Atacas

Todo caminho traçado é parte de uma bifurcação que desemboca sempre no mesmo ponto. Comum.

Ela pode traçar os dedos, continuamente deixar impressão em outros corpos,

Ele pode encher a cabeça, a cara, os ouvidos. Nunca o peito.

Vazios, condenam-se a preencher-se com aquilo que dispõem.